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Kwashala Blues: Uma viagem sobre a vida - Suely Vasconcelos

É sempre inquietador para mim receber um convite para apresentar um livro, principalmente, quando esse convite parte do próprio autor. É uma responsabilidade, porque não sou uma crítica literária, sou uma incentivadora da leitura por ter ciência da sua importância e por ser vítima, como muitos de nós, da falta de incentivo a leitura de textos literários. 

O processo de desenvolvimento do mundo subdesenvolvido, outrora, priorizava a leitura técnica. Éramos obrigados a saber, como se a literatura não fosse importante para abrir não só o caminho do saber conceitual, mas possibilitar uma viagem a lugares e sensações desconhecidos ou memoráveis. Talvez, esse processo ainda seja cruel, mas quero acreditar que estamos superando, afinal, temos aqui, o Grupo Xitende apontando a direção inversa, colaborando com o lançamento de autores novos e renomados, nos convidando sempre à boa leitura. Parabéns pelo trabalho. Também, contamos com a Ethale Publishing, uma editora moçambicana de reparação, vocacionada a publicação de autores africanos que apresentam em seus textos não apenas o que vêm ou sabem de África, mas o que sentem em suas entranhas. Enfim, agradeço ao Jessemusse Cacinda, o peregrino, por me ter escolhido como madrinha. Sinto-me honrada!

Por falar em viagem, esse livro me fez viajar, literalmente, em seus 11 textos que compõem cerca de 55 páginas. De início, fui para o fatídigo ano de 2020 ao me deparar com o título do primeiro capítulo: ”A Morte do Meu Pai.”

Não, o meu pai não morreu, mas poderia ter morrido vítima de um câncer de esôfago, provocado por anos na condição de fumante. Trago esse fato, para justificar o meu bloqueio inicial e para elucidar os gatilhos que a literarura nos proporciona e Kwashala Blues despertou em mim diversos gatilhos, inclusive positivos relembrando a minha chegada a Moçambique e a Nampula e tenho a certeza que virá a despertar tantos outros em cada um dos leitores, a começar pelo próprio título que nos remete ao gênero musical Blues criado pelo povo preto nas Américas. E o que seria Kwashala? Africa é temperada por música e dança, logo se tem blues, tem dança e esta destaca a sensualidade dos povos originários de Nampula - Kwashala. É esse ritmo e sonoridade que embalam “os bairros pobres da província de Nampula inspirada na rumba congolesa” que dá o tom a essa história que flutua entre a autobiografia e a liberdade dada pela literatura aos escritores. O livro foi prefaciado por Noemi Alfieri e passo a apresentar.

Apertem os cintos!

A riqueza de detalhes da narrativa de Jessemusse, faz com que o leitor acesse o cenário, aguçando o imaginário de tal ordem que os leva  a fazer parte do contexto descrito ou a reviver sabores como nos seguintes excertos: 

“Carlos Sapato ... Acordou, o relógio de parede, pendurado à entrada do seu quarto, comprado há mais de 15 anos na cidade de Roma, indicava cinco horas e vinte e três minutos. A temperatura exterior era de 15 graus celsius. Fazia um frio atípico em Nampula.” (reticências) “Muarema Tuphela, esposa de Carlos Sapato, passou a sua mão direita pelo seu peito, enquanto a mão esquerda apalpava-lhe as cuecas.” Garanto que vocês pensam que sabem como termina essa história, mas ela pode ter desfechos agradáveis ou não; e segue o autor em outra cena:  “Num desses dias, na cozinha, cortei o tomate e a cebola, esmaguei o alho, lavei as mangas secas e retirei um pedaço de galinha fumada do frigorífico” Se referindo, agora com certeza, ao saboroso tocossado.

A metáfora é outra marca em seu texto. O autor faz o uso dessa figura de linguagem tornando a retórica mais próxima a uma diálogo com o leitor, como nos exemplos encontrados nos diferentes textos:

  • No pico do bate-boca; 
  • Um nó de sentimentos a comer-me as células;
  • Tinha uma tripulação de angústia e incerteza comandando a minha alma; 
  • A minha alma a dactilografar  as memórias passadas;
  • “Os gemidos cresciam como ondas de vento sobre o mar;”
  • “Todos me atiraram um olhar acusador, espetando-me uma seta de culpa”;
  • “Atacado por uma tempestade de perguntas;”
  •  “Era possível ver e sentir esse brilho na sua voz”

O uso desse recurso torna a sua narrativa interessante e enigmática.

Dando seguimento a viagem a que o texto nos convida, somos transportados inicialmente para Nampula. A história traz um enredo tão complexo e atual: A INCOMPREENSÃO e falta de RESPEITO, principalmente do pai, em aceitar as escolhas dos filhos sejam elas relacionadas a profissão que deseja seguir, a se quer casar-se ou não, se quer divorciar-se ou manter-se numa relação de sofrimento, se é homossexual ou bissexual, levando a uma atitude de expulsão de casa, deixando o filho ou a filha a mercê da própria sorte. Apesar, desse fragmento lamentável, do qual vocês terão que ler para saber qual deles é o pano de fundo da história, conseguimos estar em espaços tão agradáveis nessa viagem a cidade de Nampula, por exemplo, é possível se sentir na Escola Secundária,  no bar Tropical e no vizinho bar Copacabana, no snack bar Baghdad, no lar dos professores do Muahivire, na Escola Primária dos Limoeiros,  no famoso bairro Namicopo e na paróquia de Santa Maria, observando o vai e vem do comboio vindo de Cuamba transportando pessoas e mercadorias através dos Caminhos de Ferro de Moçambique, etc.

Para além do passeio pela bela cidade de Nampula, Jessemusse rememora o movimento Made in Namicopo e personalidades que fazem parte da história cultural de Moçambique, como: Rei Costa, Norte Jazz, Manono Jazz, Murara Jazz, Rena, Charifo Victor Salimo, Moreira Chonguiça, Zena Bacar, Justino Cardoso e outros. Com isso, a sua literatura nos aguça o desejo pela pesquisa, conforme aunciei acima como sendo uma das funções dos livros.

Na tragetória da sua história, Jessemusse também nos leva para Maputo, Maxixe, Inhambane Céu e a Memba por entrelinhas e nesse percurso podemos encontrar com o comandante Ernesto Carrilho,  com o cineasta brasileiro Licínio de Azevedo, com os saudosos Pedro Nacuo, jornalista do Sociedade Noticias, e Rui Knopfli, poeta português, dentre outras personalidades.

Enfim, esse clássico da literatura moçambicana, assim já o considero, nos revela vida, onde também se encontra atualidade e a certeza de que um episódio triste nos faz crescer e nos ensina que a maturidade “passa por aceitar os percaulsos da vida como normais, a vida é uma viagem longa, durante o percurso podemos ter quem se senta ao nosso lado, podemos ter longas paragens ou avarias, mas a única forma de chegar ao destino é continuar a viagem” como cita a personagem Maria Amália na página 51.

Que sigamos a nossa viagem gratos por mais essa publicação da Ethale que enche os nossos corações de orgulho do povo preto africano. Sigamos filosofando pela vida, conforme apela Jessemusse, alterando-nos entre alegrias e tristezas, mas como africanos dançando sempre.

Viva Kwashala Blues!!!

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