hello world!

Que Moçambique Escreve o Escritor Moçambicano? A Resposta em "Missangas e Tributo" - Por Rudêncio Morais

Começo esta apresentação na boleia de uma questão que se nos é colocada por Mia Couto, conceituado escritor moçambicano, quando nos interpela: Que África escreve o escritor africano?
“Missangas e Tributo” não só responde a essa questão, como também nos convida a pensar: Que Moçambique escreve o escritor moçambicano?
Ao ler esta obra de múltiplas bifurcações, composta por fragmentos da história nacional, de África e do mundo, escritos de forma poética, percebe-se, ainda na primeira parte, intitulada “Missangas”que esses fragmentos se unem por um fio de poemas que nos conduzem à força do povo Makombe à importância de escrever sobre Moçambique, a sua gente, as suas lutas, conquistas e transições.

Olavo Deniasse começa a sua viagem agradecendo a duas entidades fundamentais: Em primeiro lugar, a Deus, não apenas pelo dom da vida, mas também pela inclusão dos negros na sua agenda. Em segundo lugar, aos libertadores da terra e do Homem.

Entretanto, só depois reconhece que há uma gratidão em dívida. Daí o grito de libertação que se faz ouvir na voz das missangas que vestem a nossa terra e a sua gente.

Este livro, de forte pendor cultural, procura restituir essa gratidão à terra e aos homens que a constroem. A obra renasce em 2022, na sequência de uma viagem a Choa, um dos postos administrativos do distrito de Barué, onde, em Março de cada ano, celebra-se a Revolta de Makombe, também conhecida como Revolta de Barué.
A obra celebra a terra, o chão e a tradição de um povo profundamente devoto das suas raízes. Chido-Che-Moyo, nome transmitido a Olavo em 1974, numa época em que os nossos podiam ser tudo, menos os seus próprios nomes, convida-nos a voar, a deixarmo-nos enfeitiçar pelo encanto daquele lugar, sem nunca esquecermos onde repousa o cordão umbilical do nosso povo.

E assim nos fala no poema “Cidadão do Mundo” página 27:

“Na hora de estudares além-portas seja por terra, por mar ou por ar, que o mundo te leve para longe. Mas bem longe! Galgue homem! Alô! Galgue mesmo! E deixa-te embebedar pelo feitiço de lá, mas não te esqueças que és cidadão do sonho daqui.”

Um poema que nos remete, de alguma forma, ao ano de 1964 quando Craveirinha escreveu o poema do futuro cidadão, que vinha de qualquer parte, de uma nação que ainda não existia, é essa a nação sonhada que Olavo nos convida a não nos esquecermos dela.

Este é um verdadeiro manifesto de moçambicanidade, que não se circunscreve apenas ao povo Makombe, mas também se deixa tocar pela força dos Nharingas, sendo, por isso, um livro que convoca todos os moçambicanos.

A forma como escreve remete-nos à importância do outro na vida colectiva e para a força do testemunho que faz da partilha um instrumento valioso de preservação do saber. Nestas missangas que se unem neste corpo de papel, está não apenas o tributo à terra e aos ancestrais, mas também o sentido da unidade nacional e a necessidade primordial de fazer o bem, como nos ensina a dinastia Makombe.

"És responsável por avisar o pastor se o vires conduzir a sua manada em direcção a um precipício, caso saibas da sua existência, e nunca apareças, após um eventual infortúnio, com um discurso afirmando que sabias, mas que não o alertaste porque ele não te consultou sobre o melhor caminho a seguir com a sua manada."

Em “Missangas e Tributo”Chido-Che-Moyo despe-se da geologia que marca a sua veia profissional e dos impactos ambientais da mineração artesanal do ouro, tema da sua primeira viagem literária, para se tornar mais presente, mais expressivo e mais acessível. Fala-nos de uma pedra heroica, cansada do frio no estômago e íntegra perante a injustiça.

Olavo, costura, a partir das indagações do tempo, um caminho que nos convoca ao amor fraterno sem nunca perder de vista os rastos que assinalam o alpendre das origens que constituem a nossa essência.

Há neste livro marcas de uma poesia de combate, escrita na musicalidade das palavras do nosso tempo. Esse traço pode ser encontrado no poema Malhas, página 25, quando nos diz:

“Cuida-te! Não confies! Não confies! Há três malhas finas: Missangas, oferendas e dinheiro. Não sejas tu! Nessas malhas finas, peixe haverá que escape ao cerco.
Sê tu o vencedor, ó companheiro! “

Nós, os jovens, somos convidados pelo autor a percorrer a História para escrevermos transformação, gratidão e reconhecimento por aqueles que libertaram a terra, o Homem e a sua história. Uma gratidão que se estende à arte, à poesia e ao desporto.

É um livro com muitos livros dentro de si e com uma metáfora deliberadamente acessível, precisamente para fecundar o leitor com sentimentos de encantamento por Moçambique, pelos seus recursos e pela sua gente.

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Oldest
Newest Most Voted

Outras notícias

crossmenu
0
Would love your thoughts, please comment.x
()
x